quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Sem filosofia... Nem pensar!

''Filósofo só pára de pensar para pensar em que está pensando.''



Filosofar é pensar. Não um pensar qualquer. Não é um pensar solto no ar, perdido no mar, um ir-e-vir por aí. Não é jogar pôquer, apostar para ganhar tudo ou alguma coisa perder. Ou tudo perder e chorar sobre o pensamento derramado.

Filosofia é pensar dia a dia no dia-a-dia. Pensar é desfiar o fio da meada. Penso, logo desconfio. Pensar a prece, a pressa, o peso, o passo, a pizza, o poço, o prato, a prata, o porquê do epitáfio, as razões do rififi.

Filósofo é aquele que pára para pensar. Pára para não parar de pensar. Pensa para comer o pão com o suor de sua mente. Pensa, logo alonga, longínquo pensamento que o deixa tão perto de tudo. Filósofo só pára de pensar para pensar em que está pensando.

Filosofal viver. Filosofal andar. Filosofal tropeçar. Filosofal cair, e encontrar na queda outros motivos para mais filosofar. Filosofal sentar sobre a pedra filosofal. Idéia tanto bate sobre a pedra, tanto bate até que o pensamento perdura.

Filosofante caminhar, o homem sobre o elefante, o elefante sobre a terra, a terra sobre o vento, o vento filosofante venta para onde quer. O filosofante gigante sobre os ombros de um anão também verá mais longe.

Filosofema retira algemas, descobre o filósofo da gema, faz nascer antenas, penetrar esquemas, abordar todos os temas, reler o poema, inspirar-se no cinema, valorizar o pequeno, o fenômeno, o dilema, remar contra ou a favor da maré.

Filosofice é sempre um risco. Ninguém está livre de pensar contra o pensamento. Ninguém está livre de se aprisionar uma vez mais. Ninguém está livre de pensar que pensa, e despencar do altar que ergueu para si mesmo, confundindo filosofia com empáfia.

Filosofismo é outro risco. Belo risco, afinal, porque somos todos capazes de filosofar. O filosofismo é a filosofia que virou jogada, pretexto, mania, suborno, insulto. O filosofista finge que pensa, e por isso parece pensar melhor que o próprio pensador.

Filosófico texto, contanto que as palavras abram nossa mente e nos façam mentar o mundo. Que o texto filosófico não seja apenas manobra, cobra preparando o bote, veneno que paralisa o leitor e o devora pouco a pouco.

Filosofar, enfim, é começar a pensar sem fim. É pensar quando não se pensa em nada, pensando em tudo. Pensar como sempre. Como nunca.

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.


terça-feira, 8 de setembro de 2015

O DIA QUE EU A ESCOLA E O TEMPO SOFREMOS DE SOLIDÃO.

''A escola não sai de minha memória, como minha memória passou habitar aquele lugar.''

Na escola isolada, abandonada no interior de Romelândia há um encanto, um espanto, um tesouro guardado na silenciosa parede esquecida em estilizada mensagem ‘’É na educação dos filhos que se revela o caráter dos pais.’’ – esse é o tesouro da responsabilidade da família para com seus filhos na escola.

Sim, escolas não foram feitas para solidão, para silêncios eternos, abandonos do acaso e meros depósitos de crianças. Mas essa escola não está sozinha, encravada nela estão as lições que a vida urbana deixou de fazer.

Nas paredes silenciosas da simpática escola estão grifados artisticamente, paixões pedagógicas, lições de afetos e gritos de amor como: '‘você é a estrelinha que ilumina nossa escola’’ e na outra parede ‘’crianças são como borboletas ao vento, algumas voam pausadamente, mas todas de seu melhor jeito, cada um é diferente, cada uma é linda, e cada uma é especial.’’

Falo da escola Érico Verissimo na linha São Jorge interior de Romelândia. Falo da realidade de tantas escolas neste país abandonadas pela irresponsabilidade e insensibilidade de governantes – diferente dessa escola que o êxodo rural e o baixo número de crianças levou a fechar.

Falo especificamente dessa escola, tão real, presente aqui perto ou dentro de nós, onde não se tem mais crianças para ocupar as salas, sentar nas cadeiras, suprir paixões dos professores e preencher o silêncio da Escola.

Falo da nostalgia, das histórias infinitas ali contadas por décadas, falo das crianças, adolescentes que ali brincaram, falo dessa escola que não morre, mesmo no silêncio, na sensação de abandono, na nostalgia de tempos que não volta, mas não passam também. Porque embora tenha levado longe tantos tesouros que ali se alfabetizaram, os traz de volta constantemente mesmo que somente em memória.

Porque a escola atual, a escola que sonhamos para amanhã e o distante futuro parece sofrer de tédio, de estresse e silêncios que dividem classes, mestres e sonhos? - Enquanto a escola do passado ressuscita constantemente de amor, de lembranças e frutos saborosos de tempos que não voltam mais.

Escolas do passado parecem as escolas que sonhamos para um futuro que não tende a chegar. Porque nessas escolas de futuro esmagamos com métodos pedagógicos modernos as essências de tempos que não voltam mais, da paixão do ensinar pelo professor ao cuidado da família com a educação do respeito e limites dos filhos. 


Nestas escolas que não voltam mais estão depositados o tesouro da responsabilidade hoje esquecida, renegada, abandonada pelos estudantes, por seus pais, seus governantes mesmo sob o nome de escola do presente, do futuro e da esperança. – Mas sem coragem de enfrentar os desafios pertinentes!

Naquela escola que nunca sentei, nunca lecionei mas lá estive por obra do destino, por curiosidade em seu silêncio há algo que não volta mais. Ali há um coração que pulsa como memória nas paredes, uma luz que brilha sobre o quadro negro, uma ordem nas cadeiras que esperam por alunos que não chegam, um portão aberto para o incerto e tão receptivo.

Na Escola isolada moram memórias que não morrem como o escritor que lhes concede o nome – ali mora a história do lugar, o reflexo de um educar que não volta mais, mas que embora de portas fechadas continua a nos ensinar. 'A escola não sai de minha memória, como minha memória passou habitar aquele lugar.'

Neuri a. Alves – Filósofo, Professor Pesquisador